Fotos: Leíria Rodrigues (*)
Serra do Índio. Foto: Leíria Rodrigues
Serra do Índio devastada. Ao fundo, a cidade que a devastador

por Leíria Rodrigues (*)

“As mulheres vinham lavar roupa e pegar água daqui da fonte para beber. Era aqui que eu trazia meus filhos para brincar…era o nosso lazer olhar a cidade pela Serra…”. Assim foi a lembrança saudosa de Antônio Domingos, o “Tonhão”, do bairro do Santarezinho, onde está localizada a “Serra do Índio”, em Santarém. Morador há 26 anos no bairro, foi crescendo subindo a serra e vendo aos poucos ela desaparecer.

Numa conversa saudosa e de lamentos, subimos parte da serra, olhando com cuidado os detalhes da degradação, até para assegurar que nenhum acidente nos ocorresse, em virtude das crateras que encontrávamos no percurso. Algumas paradas, para relembrar algum fato que hoje é impossível reviver, pelos rastros da destruição e do abandono. Erosões recentes provocaram crateras com mais de 2 metros de profundidade.

Segundo Tonhão, a Serra começou a sofrer ainda na década de 70, com a retirada de parte do pico para que aviões pudessem sobrevoar com segurança. “Eles metiam máquinas e iam acabando com tudo”. Não só brincou na serra, quando menino, como ajudou a preservar a área quando adulto, na associação de moradores do bairro, como liderança comunitária: “por várias vezes encaminhamos documentos para a prefeitura, mostrando a situação e pedindo ajuda. A maior parte das autoridades não conhecem a Serra”, lamentou o comunitário.

Fluxo de carros
As erosões também foram aumentando com a retirada desordenada da areia, para uso da construção civil. “Carradas e mais carradas de areia saiam daqui desta serra. O viaduto, a orla de Santarém, tem essa areia. Na época, tive que mudar de rua, porque o barulho e o fluxo de carros era muito grande, e tinha medo dos meus filhos que ficavam brincando na rua de casa”.

Serra do Índio. Foto: Leíria Rodrigues

Outrora imponente, a Serra do Índio fica menor a cada ano

O desabafo de Tonhão ecoava no alto da serra, onde conseguimos chegar. De lá, víamos grande parte do bairro, que ainda cresce desordenado ao pé da serra. E com cuidado e ajuda de um outro morador, paramos para contemplar a paisagem natural que ainda se avista no entorno da serra. A vegetação nativa quase não existe e o lixo doméstico toma conta ao redor.

Dona Paula Almeida, que mora numa área de ocupação do bairro, bem no pé da serra, lamentou a situação do lixo. Disse que ela e o marido catam garrafas pet’s e não deixam ninguém de perto jogar lixo, mas “as pessoas tocam fogo e queimam lixo”. Dona Paula mostrou uma grande área de vegetação que foi queimada pelo fogo. Disse ainda, que a coleta do lixo é feita por uma carroça, pois o carro da empresa que faz o serviço público, não passa por lá, devido à dificuldade de acesso.

Explosão
Em pleno céu aberto, ao pé da serra, encontramos vários buracos feitos para despejos de resíduos, como coliformes fecais, em antigas “privadas”. Além dos riscos de desmoronamentos, a falta de saneamento preocupa as famílias que vivem no entorno. Tonhão disse que ouve constantemente, estrondos pela madrugada: “em noites de chuvas fortes, a gente ouve tipo uma explosão, devem ser as rochas, barrancos de areia caindo. A gente tem medo, mas não tem pra onde ir.”

Outro impacto ambiental negativo é o assoreamento dos igarapés que cortam a área, como os igarapés do Irurá e Mapiri. Em recente reportagem, o jornalista santareno Manoel Cardoso, revelou dados técnicos de um levantamento da empresa R. Branco Engenharia, que “tanto o Lago do Mapiri quanto o igarapé do Irurá também tem sido prejudicado pela descida de areia da Serra do Índio, onde foi retirada a ponta superior da serra a fim de reduzir a altura da montanha, para facilitar o pouso de aeronaves no antigo aeroporto da cidade.

A retirada de parte da Serra, segundo a empresa de engenharia, causou um dano ambiental sério, por conta dos idealizadores da obra não terem previstos o desastre do assoreamento do Irurá com a descida das terras durante a chuva. De acordo com a R. Branco Engenharia, matando o igarapé do Irurá irá acabar com a biodiversidade e transformar a área em um deserto.

A empresa R. Branco é a favor da retirada total da Serra do Índio, por acreditar o impacto ambiental seria menor, principalmente pela Serra ter perdido a proteção natural, ocasionando na descida de areia, a qual está assoreando o igarapé e toda região. Para a R. Branco Engenharia, a proibição da retirada da Serra do Índio é incoerente e, que o projeto de remoção total seria a alternativa para iniciar o reflorestamento da área, além da construção de uma escola florestal, um bosque ou outra área verde para Santarém”.

Recompostas
O Engenheiro Ambiental Podalyro Neto, também acredita que não há como reverter, uma vez que a área está seriamente impactada. “Nesse caso, não existe um mecanismo que possa oferecer um período de vida útil a Serra. Diferentemente de uma área que precise ser reflorestada. Áreas arenosas, dificilmente nascem de novo ou são recompostas”.

Dentro desse contexto, existem várias técnicas que oferecem a retirada da serra, com baixos impactos negativos. Podalyro só alerta para que de fato isso aconteça, dentro de um projeto de urbanização da área. “A população precisa ser envolvida e acompanhar o processo de revitalização da área em outros cenários e que se tenha um destino adequado ao material, no caso a areia. Até porque é uma Área de Proteção Permanente”.

Um dos maiores impactos é também o paisagístico, a degradação avassaladora na Serra do Ìndio tem provocado uma mudança radical no cenário, que segundo o geólogo e auditor ambiental Miguel Campos, o espaço deve ter sido originado há pelo menos 7 milhões de anos antes do homem. Constituída de um material areno argiloso, que tem sua origem na Vila de Alter do Chão. Por ser encontrado com facilidade na região é o mais usado no setor da construção civil.

Um cenário constituído pela urbanização desorientada e a retirada desordenada de recursos naturais contribuíram para a emergência dos impactos ambientais como desmatamento, destruição das áreas de preservação permanente, intensificação dos processos erosivos e contaminação generalizada dos recursos hídricos, problemas que se relacionam com localização, distância, topografia, características geológicas e geomorfológicas, crescimento populacional, especulações imobiliárias, formas de apropriação do espaço e segregação sócio-espacial, salientou o geólogo.

Milhões de anos
“Agora a saída é criar um Plano de Recuperação de Área Degradada e mitigar os impactos como a poluição sonora e do ar. Não há como salvar a Serra do Índio sem uma medida de zoneamento que destine a retirada do material arenoso e, uma destinação adequada. Da parte plana, que ficar, recuperar”, disse Campos.

A Serra do Índio, que levou milhões de anos para se erguer, pode levar pouquíssimo tempo para deixar de existir. Assim como Tonhão, Dona Paula, outros moradores olham a Serra como num adeus. Tonhão chegou a baixar a cabeça e suspirou forte, quando perguntei como seria olhar para frente e não ver mais a serra. “Se retirar é o melhor para a Serra…A cada morro que desce é como se fosse a morte chegando devagar”, disse o antigo morador num tom de desalento.

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* Santarena, é pós-graduanda em Jornalismo Científico/UFOPA. Essa reportagem é parte da ação do curso de Pós Graduação em Jornalismo Cientifico da UFOPA, da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, promovida pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, no período de 17 a 23 de Outubro de 2011, com o tema “Mudanças Climáticas, Desastres Naturais e Prevenção de Riscos”. O título original da reportagem é “Degradação avança na Serra do Índio:  Riscos a população e à Natureza”.

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3 Comentários em: Degradação avança sobre a Serra do Índio

  • Sou morador do amparo , minha casa fica a uns 300 m da serra e estou temporariamente em belem aqui residindo a um ano, mas me dói muito quando vou a minha casa e vejo a situação da serra onde quando adolescente ia dormir com a galera ou fazer virgilha com o pessoal da igreja da paz, nessa situação e tenho que concordar com a reportagem acima em todos os seus pontos , porém ressaltar e o golpe de misericórdia foidado no governo do Lira Maia que sem dó nem piedade retirou muito material de constução para fazer o seu elefante branco(viaduto da cuiabá com fernando guilhon), tudo em nome do progresso!!!!!!!! snif… snif… snif…

  • Se não estou enganado Jeso, no meu tempo era Serra Piroca, não? Agora cá pra nós Jeso, que material bonito esse da Leíria, parabéns. Frequentei muito essa serra, íamos pernoitar por lá, eu, meu irmão Phebinho, Paulo Iida, Victor Aderne, Jorge Cavallero, Miltinho e outros, todos com mais ou menos 15 anos, meu pai deixava a turma no pé da serra onde tinha um acampamento do Tiro de Guerra da época, passávamos a noite lá em cima acampados, e meu pai ia nos buscar noutro dia de tardinha. De lá, a noite,com a imaginação fértil víamos de tudo, até discos voadores 🙂 Do pé dessa serra, meu irmão Phebinho, lançou seu primeiro mini foguete, com direito a festa, refrigerantes e amigos. Até que um dia levamos uma surra de abelhas africanas que passavam por lá, o Phebinho que passou horas pra subir a serra desceu em um minuto…rs… Aí nosso pai nunca mais deixou a gente acampar no topo da serra. Ficou as lembranças.

  • Bela matéria, parabéns! Lembro da primeira vez que vi a serra piroca (agora serra do índio), linda, muito linda. Na época não imaginava que havia algo assim em Santarém. Havia indo com minha mãe ver um terreno no recém fundado “bairro da esperança”. Além da serra descobri o seminário. Era só mato. Fomos os primeiros moradores do bairro. Nossa casa ficava à beira da “rodagem”, na época um estrada de chão, de frente para ela. A primeira vez que subi a serra, lembro que havia uma cruz caída lá no topo. Anos depois com a construção da Santarém-Cuiabá veio a desgraça. Já era final de tarde quando vimos os “D8” do 8º BEC subindo, contornando a serra. Crianças, achamos que estavam fazendo uma estrada para chegar ao topo, quando logo começou a devastação.
    Engraçado, sempre ouvi essa conversa de reduzir a cota pela segurança do tráfego aéreo. Ora, hoje sou arquiteto e sei que isso não é verdade nem necessário. Até conheço um velho comandante que sempre voou para Santarém e outros pilotos que nunca reclamaram da serra.
    Os motivos exatos não sei, mas sei que seguindo essa lógica já teriam removido o “pão de açúcar” no Rio de Janeiro que fica bem na reta da pista do aeroporto Santos Dumont.
    Conheço o Coronel que na época comandava o 9º BEC, Quando disse que a ele: “que m… que fizeram em Santarém. Destruíram a serra depois construíram aquela rampa horrível que depois cedeu. Porque não fizeram uma ponte?” a resposta dele: “Eu não tive nada a ver com Santarém, eu fiz o pedaço de Cuiabá para Santarém” e não respondeu minha pergunta.
    Bom vamos ficar só na saudade e qualquer coisa que se faça não será a mesma coisa. A não ser uma torre mirante em memória da dela.
    Abraços a todos que amam Santarém.

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